Governo do Distrito Federal
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22/03/18 às 16h28 - Atualizado em 29/10/18 às 12h11

A construção social do espaço urbano: a Brasília que queremos

ALDO PAVIANI

Professor emérito, pesquisador associado do Depto. de Geografia, do Neur/Ceam/UnB e Diretor da Deura/Codeplan

 

Ao longo dos séculos, cada sociedade humana, em diferentes contextos continentais e regionais, engendrou mecanismos na ocupação do território para a produção na agricultura/pecuária, nas plantas industriais e nos aglomerados urbanos – desde as vilas, passando pelas cidades médias e grandes cidades – metrópoles e metápoles (megalópoles). Em nosso contexto, podem surgir indagações como: de que forma as instâncias governamentais, do setor privado e mesmo os cidadãos atuam para favorecer ou frear o crescimento urbano? Outra questão, se prende à forma como o território é ocupado, com maior ou menor esforço para conter as desigualdades socioespaciais? Ademais, na evolução urbana e regional, há respeito aos biomas? Como as sociedades urbanas dão importância aos estoques vegetais, de água potável (cuidados especiais com as nascentes e lençóis freáticos) e os cuidados com a fauna, magnificando a biodiversidade?

Todas essas perguntas devem surgir nas escolas, pois crianças e jovens, sendo estimuladas, se constituem em vetores para a manutenção da vida no planeta. Nesse caso, não há necessidade de “nova disciplina” (como querem com os ensinamentos de trânsito), mas como preocupação em todas as disciplinas. Com isso, se tornarão atrativas matérias que podem ser enfadonhas para boa parcela do alunado. A cada dia os jovens e crianças terão assuntos para debater em família, com os pais e irmãos ou entre colegas de classe. Aliás, se essa metodologia ainda não estiver em pauta, sendo desenvolvida, fica a sugestão para que seja introduzida pelas Secretarias de Educação.

No caso específico de Brasília e de sua área metropolitana (em construção) um tópico interessante para ir colocando novos “tijolos” na organização do espaço urbano é ir avaliando o desenho urbano – como a ação do Estado (no interior do DF) e das empresas no anel metropolitano (o pejorativo “entorno”) de ambos os conjuntos urbanos. Em outras palavras, como o Estado e a iniciativa privada ensejaram cidades em “núcleos múltiplos”, esparramados no território, uns distantes dos outros e com pequenas atividades geradoras de trabalho humano. No caso específico do DF, o modelo polinucleado de povoamento teve vantagens ambientais e econômicas, sobretudo porque resolveu parte do problema de moradia nas Regiões Administrativas (RAs). Todavia, cada RA não teve o benefício de locais para trabalhar de forma condizente com as respectivas populações ativas. Como reduzir os deslocamentos para o trabalho, pois a equação morar e trabalhar no mesmo local, não foi a tônica do planejamento urbano durante décadas até os dias correntes?

Nessa avaliação do mapa construído em Brasília, fica ressaltado que raras cidades no mundo possuem grandes áreas verdes intercaladas entre um núcleo e outro, como no DF e na fímbria metropolitana (os doze municípios adjacentes ao DF). Apenas para servir de exemplo geográfico, os espaços verdes, intercalares, de Brasília ensejam grande vantagem comparativa às demais metrópoles em que, como em São Paulo e outras cidades, paredões de cimento e ferro foram sobrepostos aos antigos bosques e extensos gramados, destruídos junto com a fauna e as nascentes, além de terem poluído os cursos d’água (como os rios Pinheiros e Tietê), por décadas.

Constata-se, portanto, que há vantagens comparativas para a Área Metropolitana de Brasília – composta pelo DF urbano e pela já citada fímbria dos doze municípios goianos. Mas, os grandes espaços abertos trazem algumas desvantagens, ao lado do ganho ambiental em toda a metrópole. A primeira evidência de se ter um território descontínuo surge nas grandes distâncias a vencer entre um núcleo urbano e outro e entre a periferia metropolitana e o DF. Necessita-se ampliar as vias, que sempre parecem insuficientes para o gigantesco fluxo de veículos. Gasta-se mais combustível no ir e vir; as pessoas arcam com o custo dos deslocamentos diários e, pouco avaliado, o preço do cansaço físico e psíquico (stress da viagem). E, claro, a pressão sobre empresas e governo para investir em veículos para o transporte de massa – ônibus, metro e, no futuro, o trem metropolitano com maior capacidade e conforto no transporte de passageiros. Para alguns a solução seria emendar todos os centros, com a chamada conurbação. Todavia, a geografia local ficaria mais complicada. Seria mais um enorme problema, como acontece nas grandes metrópoles brasileiras. Afinal, que Brasília queremos?

Correio Braziliense, 21/03/2016

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