Governo do Distrito Federal
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22/03/18 às 17h11 - Atualizado em 22/03/18 às 17h11

Brasília, o passado estruturante

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Aldo Paviani (*)

 

Qualquer imigrante que chegasse a Brasília, ao final dos anos 1960, encontraria uma cidade em obras e, como diria o grande geógrafo e mestre Milton Santos, em escrito de 1965, “a Capital é um canteiro de construção”. Nessa época, o Núcleo Bandeirante foi a base territorial para a construção do Plano Piloto e era mais completo do que a Vila Planalto, pois assumiu o papel de movimentado centro comercial e de serviços. No Núcleo Bandeirante poderiam se fazer compras, realizar negócios e resolver problemas de diversas naturezas. Nele se podia encontrar mercadorias vendidas a granel na feira, cobertas por lonas. Nessa feira, havia grande afluência de compradores, inclusive do Plano Piloto. Havia hóspedes no Hotel Rio de Janeiro, muito conhecido porque Juscelino Kubitschek fora apreciador do restaurante deste local, que frequentava com políticos e amigos.

 

Outros hotéis hospedavam passantes/vendedores e pessoal contratado para os canteiros de obras. O Núcleo abrigava as agências das companhias aéreas, a rodoviária interestadual, agências bancárias, ferragens, escritórios, consultórios, pequenas indústrias como moagem de café, fábrica de esquadrias metálicas, marcenarias e muitas oficinas mecânicas.

 

As lojas e as casas com duplo piso eram todas de madeira. Por isso, como havia risco de incêndio, a população viu com bons olhos a modernização trazida pelas lojas de alvenaria e o asfaltamento das ruas, que acabou com a poeira da Avenida Central. Enfim, O Núcleo Bandeirante, antiga Cidade Livre, desempenhou papel importante e deu suporte para a construção da Capital Federal.

 

Em 1957, o IBGE estimou que a população do Distrito Federal (DF) era de 12.700 pessoas, sendo 6.283 no Plano Piloto e 2.212 no Núcleo Bandeirante e demais acampamentos de construtoras, com 3.416 moradores. Havia emprego para todos e o ritmo das obras foi motivo de intensa imigração, sobretudo de homens. O restante da família viria mais tarde, conforme relatam alguns historiadores. Ao redor do Núcleo Bandeirante, as comunidades informais se ampliavam, pois eram o lugar de moradia dos operários atraídos para trabalhar na construção do Plano Piloto.

 

A população do DF crescia exponencialmente. Em razão desse crescimento, houve remoção dos moradores dos núcleos subnormais para Taguatinga, em 1958, a primeira cidade-satélite. Entre 1957 e 1960, de 12.700 habitantes, o DF chegou a 141.742 pessoas – dessas, 52.044 moravam no meio rural. Para o censo de 1970, um acréscimo de 404.273 pessoas fez o DF atingir o meio milhão de habitantes (546.015 – apenas 21.700 do meio rural).

 

Esses anos foram de atividades estruturantes para a implantação dos poderes da república. Não faltavam postos de trabalho, a carência era de trabalhadores. Os canteiros de obras abrigavam milhares de operários. Os maiores canteiros eram as “Localidades Provisórias” (Metropolitana, Candangolândia e Velhacap), com 5.913 moradores e as “Grandes Invasões”, somatório de 77.702 habitantes de comunidades não formais espalhadas pela cidade, segundo estimativas da Codeplan. Com a nova remoção realizada em 1971, deixaram de existir as vilas do IAPI, Esperança, Sara Kubitschek, Tenório, Moro do Urubu, Morro do Querosene.

 

Com mais de 80 mil habitantes, surgiu a Ceilândia – tarefa da Comissão de Remoção de Invasões (CEI). Na realidade, o rearranjo urbano apenas mudou as famílias de lugar e alterou o dia a dia dos moradores, em termos de deslocamentos para as atividades concentradas no Plano Piloto. Na atualidade, após as medidas para organizar o território, a cidade possui poucos aglomerados subnormais. Com essas ações, o DF passou a ter 30 Regiões Administrativas (RAs), mais o Plano Piloto – centro da Capital e da metrópole. As RAs, distantes umas das outras, se assemelham na dinâmica urbana e funcionalidade, pois serviram de moradia para o excedente populacional.

 

Nesse ponto, surgem as questões: há demanda para outros núcleos habitacionais que abriguem atividades geradoras de postos de trabalho? Qual a sustentação do patrimônio ambiental (água e vegetação) e o suporte das infraestruturas (energia e estradas) para receber mais RAs? O DF, com 3,039 milhões de habitantes, chegou a seu limite populacional? As respostas se remetem ao futuro, mas, desde já, requerem estudos aprofundados, uma vez que o DF tem o menor território entre as unidades federativas. Sua atual população é muito superior à pensada no fim dos anos 1950, quando da construção da capital. Esse crescimento é o grande desafio para o desenvolvimento socioeconômico e territorial.

 

(*) Aldo Paviani é Geográfo, professor emérito da UnB e diretor de Estudos Urbanos e Ambientais da Codeplan.

 

Correio Braziliense, 20/02/2018

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