Governo do Distrito Federal
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21/03/18 às 17h11 - Atualizado em 29/10/18 às 12h13

Industrializar o DF ou não? Eis a questão

ALDO PAVIANI
Professor emérito da UnB e geógrafo da Codeplan

 

Ao longo do século 20, as grandes cidades dos países desenvolvidos captaram investimentos para a implantação de indústrias. As atividades industriais preferiram os anéis externos das metrópoles, que foram circundados por empreendimentos imobiliários, com o que a malha urbana se ampliou. No processo, as grandes metrópoles mundiais diversificaram suas atividades, facilitando o desenvolvimento de centros financeiros e todos os ramos do terciário e do quaternário (serviços de alto nível).

Por isso, há metrópoles com destaque em termos de liderança mundial, como Londres, Tóquio, Nova York, Paris, Roma e outras. Esse modelo entra no circuito da globalização e chega aos países emergentes. Nas nações em desenvolvimento, há metrópoles importantes no aspecto de atividades e pelo gigantismo de suas estruturas urbanas, como é o caso de São Paulo, Buenos Aires, Cidade do México, Santiago, Rio de Janeiro e outras sem tanta projeção internacional.

Portanto, chega-se ao século 21 com um elenco de metrópoles incluídas na globalização, organizando-se para enfrentar a competitividade. Algumas, com certo atraso, ajustam-se para os novos tempos; outras acumulam problemas sem solução de uma administração para a outra. Entre essas, encontramos Brasília, nascida para ser a capital do Terceiro Milênio, planejada, centro de um país com projeção mundial, componente dos Brics.
No processo de urbanização, a capital da República optou por ser “metrópole incompleta” — como referiu o grande geógrafo Milton Santos. Metrópole incompleta não apenas pelos insipientes ramos industriais, mas por estar na área de influência econômica da metrópole nacional, São Paulo.

Poderíamos sugerir que, passados 53 anos, a base econômica do DF deverá mudar, uma vez que a cidade se consolidou de modo a não distribuir igualitariamente a renda e os serviços essenciais (educação, saúde, transportes públicos etc.), e também não ter dispersado no território as oportunidades de trabalho, com o que muitos núcleos urbanos são apenas lugares de moradia, não de morar e trabalhar.

Mais: surgiram subúrbios desequipados fora dos limites do Distrito Federal que não propiciam postos de trabalho. Por essa problemática, o que antes era tido como entorno gerou laços metropolitanos com Brasília. Essa periferia metropolitanizada criou movimentos pendulares diários para a capital, pois a população depende dos serviços e dos lugares de trabalho, sobretudo no Plano Piloto. Em outras palavras, não há uma dicotomia centro-periferia, mas um conjunto solidário assemelhado ao das demais metrópoles brasileiras.

Por fim, ao mesmo tempo em que se deseja atrair investimentos para diversificar a base econômica, um grande esforço deve ser realizado na área educacional, no sentido de preparar jovens e adultos para a nova fase. A população economicamente ativa (PEA) será composta por trabalhadores com patamares educacionais completos e diversificados. A PEA da área metropolitana sairá da escolaridade incipiente para uma que possa lidar com técnicas mais apuradas para atender um novo formato das atividades produtivas, que exigirão mais do que o “fundamental completo” como base educacional. A formação técnica deverá estar presente na formação dos jovens, que deverão igualmente dominar uma língua estrangeira.

Isso posto, pergunta-se: que metrópole desejamos? Logicamente, o elenco de ações futuras a indicar supera o espaço deste pequeno artigo. Em resumo, para reduzir as desigualdades sociais e o desemprego, a proposta segue na direção da descentralização das atividades político-administrativas, sociais e econômicas. A descentralização rumo às cidades-satélites, em primeiro lugar e, subsequentemente, para os anéis externos da metrópole — esse ente urbano ainda por formalizar, mas que, funcionalmente, opera há décadas.

Entre as atividades produtivas propícias à expansão e dispersão encontram-se as ligadas à indústria, ainda incipiente na metrópole. É essa incipiência que a torna passível de atrair investimentos para novas indústrias e ampliação das existentes. A vantagem para essa medida é o mercado de Brasília, que é receptivo e pode ser ampliado. Mas falta responder a outras questões: a) quem terá interesse em investir no DF? b) quais ramos industriais serão vetados, por serem agressivos à natureza? c) há recursos para ampliar as infraestruturas — água, energia, meios de transportes etc.?; e, por fim, d) como capacitar os trabalhadores com a educação formal, necessária ao suprimento das atividades industriais exigentes em mão de obra qualificada?

 

Correio Braziliense, 03.02.2014

 

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